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A FÁBRICA, COMO TUDO QUE É SÓLIDO, DESMANCHA NO AR.
by Alessandro de Moura Friday, Feb. 29, 2008 at 4:20 PM

Trata-se de um texto em formato acadêmico que discute as principais transformações no sistema produtivo mundial, destacando suas metamorfoses, como Taylorismo - Fordismo - e Toyotismo. O texto foi apresentado durante o 5º Seminário Internacional de Gramsci Cultura e Política no Mundo do Trabalho: Os 70 anos da morte de Gramsci. E compõe o livro com o mesmo titulo publicado nos fins de 2007¨,Vol. 1, pp.123-128, Marília, SP, Brasil, 2007

A FÁBRICA - E TUDO QUE ELA COMPORTA - COMO TUDO QUE É SÓLIDO, DESMANCHA NO AR.

5º Seminário Internacional de Gramsci: Cultura e Política no Mundo do Trabalho: Os 70 anos da morte de Gramsci¨,Vol. 1, pp.123-128, Marília, SP, Brasil, 2007



Com a crise do sistema produtivo de organização taylorista/fordista, houve uma intensa e extensa reorganização do capital produtivo, que gerou efeitos diruptivos sobre o a classe operária. Tal crise convencionou-se designar por reestruturação produtiva. Considerando a sociedade como um complexo articulado, devemos levar em conta que a reorganização do modo de produção, como as esferas sociais são indissociáveis, diz respeito não só a classe operária, mas sim a toda sociedade, ou mesmo, a todos os homens, embora implique centralidade na classe operária. Como forma de contornar a crise, o sistema produtivo passou por um intenso processo de reestruturação, que atinge os trabalhadores assalariados individuais (percepção do sujeito acerca de si frente às transformações da realidade material a sua volta) a partir da própria (re)configuração do trabalhador coletivo (enquanto classe operária articulada a partir de bases materiais em um projeto para si). Estamos diante de um processo sócio-estrutural que ocorre através do complexo de reestruturação capitalista em seus nexos modernos e na sua dimensão produtiva organizacional, tecnológica e sócio-espacial.
Nesse sentido destacamos o desenvolvimento do toyotismo. Este surge no Japão no final da década de 1940. O ?Modelo Toyota de Produção? foi importado por outros países em períodos diferentes, chegando aos EUA e a países da Europa por volta da década de 1970. No Brasil, os primeiros aspectos do toyotismo são incorporados no final da década de 1980, difundindo-se deforma mais intensa e extensa na década de 1990, principalmente a partir da paridade da moeda brasileira o Real com o Dólar, que, entre outros, possibilitou grande fluxo de importações de máquinas e equipamentos para o país. O toyotismo desenvolve importantes metamorfoses no sistema produtivo.
Diante de tais transformações, a fábrica é minimizada, esta reduz significativamente suas plantas produtivas, com a diminuição de estoques, diminuição espacial das montadoras, diminuição do número de trabalhadores e dos ?autômatos mecânicos?. As inovações do toyotismo, como a lean producion, estoque mínimo, just in time, Kanban, trabalho em equipe (que exige um comprometimento dos trabalhadores com a redução de custos da produção) e a descentralização do processo produtivo buscam tornar a fábrica mais eficiente, ?magra? e ?leve?. Desenvolve-se um processo de minimização de amplos aspectos da fábrica. A fábrica e tudo que ela comporta (homens e máquinas) como tudo que é sólido, desmancha no ar. A precarização do trabalho aprofundada pelo toyotismo dissemina-se por todas as formas de trabalho assalariado da sociedade do capital, entendendo o trabalho assalariado como expressão ontológica do capital, mesmo que este passe por transformações radicais, é necessário garantir a extração de mais-valia.
As transformações nos modos de produção da sociedade capitalista tais como o taylorismo, fordismo, e mais recentemente o toyotismo, engendram impactos estruturais e organizativos no tecido social, que se constitui como um todo articulado, mas, principalmente, exigem transformações na forma de ser das classes trabalhadoras, que estão direta e materialmente acopladas à base do processo produtivo e aos meios de produção. O que destacamos, pensando a totalidade concreta do ser humano, é que o sistema de produção de uma sociedade é também, e ao mesmo tempo, o modo de produção da vida. Assim, o modo de produção social (embora prenhe de contradições) estrutura as formas de viver, tal estruturação não se restringe à fábrica ou ao local de trabalho, ela se reproduz e é reproduzida, disseminando-se pelo tecido social. Diferentes formas de organização e estruturação das formas de trabalho geram novas subjetividades e assim novas formas de sociabilidade.
Cabe considerar ainda que as classes trabalhadoras compõem a maior parcela da sociedade e que as classes sociais por serem antagônicas, burguesia x operariado, estão umbilicalmente ligadas entre si como um todo social. Desta forma, se é imposta uma nova forma de configuração, ou modos de ser das classes trabalhadoras acaba-se por promover transformações na sociedade como um todo, ou seja, amplia-se para outras esferas e espaços.
É possível, por meio das crises sociais e do sistema produtivo, que desmoronem e aflorem novas subjetividades, fruto das novas formas de organização objetiva e subjetiva dos sujeitos sociais, exigidas pelo modus operandi do sistema produtivo. O sistema produtivo do capital depende de sua organicidade para vigorar. Assim, este traz em si uma série de elementos constitutivos com a finalidade de cooptação e captura da subjetividade dos indivíduos para os fins do capital, ou seja, sua própria reprodução. O capitalismo impõe formas de controle sobre o metabolismo social que não apenas controle sindical ou político.
As transformações no modo de produção exigem e produzem, como síntese de sua gênese, novas formas de materialidade social, transformando intersubjetividades, entendidas enquanto subjetividades que se inter-relacionam, ou seja, as relações sociais, ?os novos métodos de trabalho são indissociáveis de um determinado modo de viver, de pensar e de sentir a vida; não é possível obter êxito num campo sem obter resultados tangíveis no outro?. (GRAMSCI, A. Americanismo e Fordismo; In: Cadernos do Cárcere).
Quando se determina novas formas de organização da produção e da materialidade do trabalho, relações dominantes na sociedade capitalista, cria-se também novas formas de produção e da materialidade da vida humana e assim das relações sociais, tanto no trabalho como fora dele. O desenvolver do capitalismo precisa necessariamente liquidar certos modos de vida e de organização social de tempos em tempos em prol da acumulação e de seu próprio desenvolvimento. A sociedade é um todo de complexos articulados, sendo impossível separar as esferas da vida. Ou seja, com as transformações nos modos de produção desenvolvem-se novos tipos de trabalhadores, novas relações de trabalho e consequentemente, abrem-se possibilidades para a criação de novos tipos de relações sociais. Tem-se o lastro para o desenvolvimento de novos tipos de homens dada à relação indissociável e dialética Homem & Sociedade.
É claro que não se trata de uma relação mecânica, pois existem formas implícitas e explícitas de resistência humana aos enquadramentos do sistema produtivo. Porém, para que o capitalismo mantenha seu vigor e organicidade, como modo de produção dominante, assegurando sua própria reprodutibilidade enquanto modelo de organização social deve-se garantir que mantenha, em intensidade e extensão, sua capacidade de geração de mais-valia. Para isso, as instituições e agentes representantes do sistema capitalista, tais como o Estado (que mesmo portador de contradições, como a luta de classes, organiza a sociedade como um todo, assegurando a predominância de uma classe sobre outras e também a extração de mais-valia), empresas (que, articuladas com outras instituições, se organizam a partir da lógica do lucro), escolas (estas são também instrumentos utilizados como parte importante do projeto de construção da hegemonia), bem como a mídia (como um aparato semiótico, que reproduz o sistema de valores da sociedade capitalista), desprendem grande esforço e energia para adequar a classe que vive da venda de sua força de trabalho às novas formas de reprodução da mais-valia e à própria relação capital-trabalho. Cria-se para cada novo sistema produtivo novas formas de relações de trabalho, e as classes trabalhadoras devem se adaptar, e serem ser adaptadas aos novos sistemas produtivos, o que se estende para fora do ambiente direto de trabalho, gerando novas formas de relações sociais. Ou seja, a relação capital-trabalho altera-se historicamente com o movimento da sociedade, porém trata-se de assegurar a reprodução da mais-valia.
O toyotismo, mais recente modo de produção que, já se pode dizer, universalizou-se in toto ou em partes com seus nexos organizacionais, tem a capacidade de reproduzir-se sem eliminar complemente nexos do taylorismo/fordismo. Pois o toyotismo, ao invés de excluí-las, incorpora estas formas de trabalho, constituindo uma simbiose de modelos de produção, que aprofunda a superexploração do trabalho. Nexos de tal modelo difundiram-se por toda a forma de trabalho assalariado, peça chave da reprodutibilidade do sistema capitalista, configurando-se como uma nova forma de hegemonia do processo produtivo e, como exposto, não poderia deixar de ser assimilar as classes trabalhadoras, gerando assim, novos patamares de subsunção do trabalho ao capital. O toyotismo não só engendra novas formas de relações sociais, mas também, gera condições objetivas para um aprofundamento das relações sociais estranhadas entre os sujeitos.
O toyotismo necessita de um tipo de trabalhador com ?maior iniciativa? e capacidade de compreensão e intervenção no processo produtivo do que necessitava a organização taylorista/fordista. O trabalhador deve ter diversas outras preocupações além do trabalho maquinal, pois deve operar várias máquinas, estar apto a fazer manutenções e difundir informações acerca do processo produtivo e do aperfeiçoamento constante de seu trabalho e da qualidade do que produz. Um dos imperativos do toyotismo é ?fazer certo da primeira vez?. Além disso, os trabalhadores devem, ainda, vigiar o trabalho uns dos outros constantemente, gerando um clima generalizado de stress no trabalho.
Isso porque, para o sucesso do toyotismo, o trabalhador deve e introjetar o toyotismo para dentro de si, para sua forma de agir, deve assimilar sua disciplina, uma vez que se suprime a utilização de capatazes no local de trabalho como forma de garantir o ritmo de trabalho, característico do taylorismo/fordismo. Os valores do toyotismo devem ser assimilados pelo ?eu? do trabalhador, devem ser introjetados na personalidade do sujeito trabalhador, a fábrica deve se instalar dentro do sujeito. Para garantir a eficácia e funcionamento do meio de produção deve haver total identificação e enquadramento do trabalhador aos objetivos da empresa (vestir a camisa).
O exército industrial de reserva, que já existia antes mesmo do toyotismo, porém de forma elástica hora mais hora menos presente, mas que tornou-se constante com o toyotismo, oferece ampla diversidade para que o capital forme um seleto corpo de trabalhadores mais propícios a aceitarem seus imperativos, o que torna-se estratégico na construção da hegemonia do modo de produção. Assim, o desemprego, bem como os planos de Participação nos Lucros e Resultados funcionam como formas de cooptação e convencimento do trabalhador.
Com isso destacamos que a reestruturação produtiva determina uma radical transformação na materialidade do capital, e também, principalmente determina, dada a relação capital-trabalho, radical transformação na forma de Ser em Si do trabalhador. (Por Ser em Si, designamos as relações a partir de condições determinadas objetivamente entre homem e meios de produção (MARX. Man. Econ. Fil.)) É o trabalho que estrutura a vida da classe que vive da venda de sua própria força de trabalho. Essa totalidade de elementos concretos que envolvem o Ser em Si, a vida do trabalhador, acabam por alterar em profundidade os hábitos e vivências do trabalhador, gerando-se novas determinações do Ser em Si e também do Ser para Si. Configura-se um novo tipo de trabalhador coletivo. (Por Ser para Si designamos relações que vão para além das relações dos homens com os meios de produção. Trata-se da consciência da situação de classe, que possibilita agir de acordo com um interesse de classe, fundado em experiências compartilhadas, vividas e percebidas. Tal capacidade da classe para si envolve capacidade de mobilização política e cultural para passar da submissão para a subjetivação (MARX. Man. Econ. Fil.)).
O modo de produção e organização toyotista proporciona um grande salto de capacidade produtiva, dadas suas inovações organizacionais, desenvolvimento técnico, industrial e científico. Tais elementos, como parte de uma totalidade, possibilitam a exponencialização da predominância do ?trabalho morto? sobre o ?trabalho vivo?, a partir da nova hegemonia taylorista, considerando que um homem sozinho administra até oito máquinas. O trabalho morto está imperando sobre o homem de forma diferenciada. A sociedade sobre a égide toyotista, o homem produz como nunca se produziu na história da industriosidade humana (composição orgânica do capital). Tal avanço das forças produtivas possibilita que se forme um exército industrial de reserva constante. O contingente fixo de trabalhadores desempregados representa, de certa forma, a sobra humana de forças produtivas, sua maior utilidade para o capital, considerado seu subconsumo, é fazer baixar o preço da mão-de-obra dos que ainda vendem sua força de trabalho.
Cabe ainda destacar que não é de todo mal para o capital que uma parte desse contingente de trabalhadores se autodestrua. Desta forma, falta para estes e suas famílias condições mínimas de reprodução de sua espécie, qual seja, a de vendedores de força-de-trabalho. É para o capital, novamente vantajoso, que uma parte deste contingente de seres humanos não alcance nem mesmo o necessário para sua reprodução fisiológica ou animal. Assim pressiona-se os trabalhadores empregados com o risco material e evidente de formas de vida precárias, doenças, prisões, asilos e a própria morte de uma parcela deste contingente que vive em condições subumanas, ou seja, dos que estão privados de usufruir da riqueza socialmente produzida pela própria classe trabalhadora, e sem condições nem mesmo para suprir suas necessidades animais, configura-se no século XXI com condições de vida, em intensidade de trabalho e apropriação dos frutos deste, para a classe trabalhadora semelhantes as do século XIX.
O trabalhador acaba tendo que lutar empenhadamente para ser explorado e assim conseguir manter vivo seu corpo físico. Desta forma o homem fica impedido, pela lógica de funcionamento do capitalismo, de se reproduzir enquanto homem portador de potencialidades múltiplas, gozando do avanço e acumulo proporcionado da marcha da humanidade, devendo preocupar-se e concentrar-se em se configurar enquanto força produtiva utilizável. Ou seja, o homem é obrigado, pela reprodução cotidiana de sua existência, a abrir mão de sua genericidade e optar apenas pelo trabalho assalariado, o trabalho torna-se inibidor da potencialidade humana. A classe trabalhadora, no capitalismo, para garantir a sua sobrevivência é obrigada a negar sua natureza e com isso a realização de sua potencialidade genérica.
Essa síntese composta de uma totalidade de elementos empíricos-sociais, condições e ritmo de trabalho, bem como acesso aos frutos deste. Coloca em evidência a nova configuração da relação capital-trabalho, que pode ser considerada como um ataque contundente da classe capitalista, representada pela figura do Estado, enquanto aparato jurídico burocrático nas mãos da burguesia, que o utiliza como instrumento de poder e arma contra a classe trabalhadora. Com o enfraquecimento do poder de barganha da classe trabalhadora, que conquistou uma série de direitos sociais ao longo do século XX que foram, e estão ainda sendo, retirados da classe trabalhadora com a investida do Estado por meio, p.xe. de políticas neoliberais.
A termo de considerações finais, cabe destacar, distanciando-nos de determinismos, que o toyotismo, enquanto modo de produção universalizante, é um fenômeno social recente e que predominou a partir de uma grande derrota da classe trabalhadora e da esquerda a nível mundial. A classe trabalhadora ainda não se reorganizou e nem desenvolveu formas contundentes e vigorosas de combate a essa nova hegemonia do sistema produtivo e assim, social. Mas a sociedade enquanto um metabolismo vivo, e o homem, célula social dotado de potencialidades múltiplas, sujeito social-histórico insaciável, embora subsumido pela precarização do trabalho, o homem não permanece passivo às transformações no curso da história. O homem nunca perde a potencialidade enquanto sujeito, ele apenas encontra-se numa condição de sujeito sujeitado. Assim, respostas se desenvolvem a todo momento.










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